A VIDA SECRETA DOS OLHARES
- Ligas e Grupos de Estudo Em Espiritualidade e Saúde
- 13 de nov. de 2022
- 5 min de leitura

Se os olhos são a janela da alma, talvez os olhares sejam os filtros que nelas colocamos. “A vida é combate”, já dizia o poeta, e os filtros podem ajudar olhos guerreiros a enfrentá-la melhor.
Um dia fui surpreendido pela tristeza. Era o olhar de uma mãe que estava morrendo por causa de um câncer extremamente grave. No primeiro mês de tratamento parou de trabalhar. Em dois meses, não conseguia mais cuidar da própria casa. Em três meses, dependia de ajuda para andar. Em apenas quatro meses, precisava que levassem comida à sua boca e lhe trocassem as fraldas, pois ficou acamada. Esteve lúcida até seu último dia, pois não podia perder uma última coisa: ser mãe. E foi, aguardando todos os filhos estarem presentes para lhes fazer recomendações, olhar nos olhos de cada um e, com profunda tristeza, entregar-se ao seu último sono.
Um dia fui surpreendido pela angústia. Ela se encontrava no primeiro leito da enfermaria de cuidados paliativos. Límpida. Exuberante. Saltava os olhos e escorria pelo rosto de um homem jovem com uma pequena/grande família. Além dos pais e esposa, têm três filhos. Um deles recém-nascido de mais ou menos vinte dias. Vinte dias. Foi mais ou menos o tempo que convivemos desde que sua doença, outro câncer grave, o levou ao hospital para tentar controlar a dor. A dor física foi extremamente difícil de tratar. Extremamente. Apesar de tudo, tornou-se menor diante da dor de deixar seu lugar dentro da família. A dor de não ver os filhos crescerem. A dor de não ser mais o homem da sua mulher. A dor de não ser o filho dos seus pais. A angústia o acompanhou até o final, porque era grande mais. E assim ele se despediu.
Um dia fui surpreendido pela alegria - e que alegria! Era um dos olhares mais doces que conheci. Ficava estampado no rosto de uma senhora de muitos e muitos anos de vida que havia lutado contra um câncer há pouco tempo. Depois de alguns meses de recuperação, teve uma complicação séria e voltou ao hospital. O internamento se prolongou, assim como as consultas, exames e procedimentos que recebeu - com muita dor envolvida, não se pode deixar de dizer. Nesse dia, ela guardava um resultado muito importante: uma biópsia. Um pedacinho de tecido que nos diria se o câncer havia voltado ou não. Cheguei ao seu lado nervoso, com o resultado em mãos - era negativo, não havia mais doença. Sentei ao seu lado e lhe comuniquei a novidade. Um segundo. Dois segundos. O choque passou voando pelos seus olhos, dando espaço para uma explosão de alegria. E havia motivos de sobra para isso: a cura da doença, a volta para o lar, o convívio com os filhos. E, claro, o mais importante: o agradecimento a seu Deus, com a celebração de uma missa e um almoço em sua casa.
Um dia fui surpreendido pelo alívio. Foi um encontro duplo - de um senhor e de uma senhora casados há mais de 50 anos. Já os conhecia do tempo em que a doença dele não era tão avançada e ainda nós víamos em consultas de rotina. Sempre simples e sereno, apesar das preocupações da esposa e da filha. Era desses homens que, depois de tanta vida vivida e tantas coisas construídas, aceita a chegada da morte com humildade - e, sem dúvidas, doses enormes de sabedoria. Tive a honra de acompanhar seu último olhar. Trocado com a esposa, já em seu leito de morte, era tão intenso e cheio de significados que eu nem me atrevia a desvendá-lo. Era íntimo. Era deles. Aquietei e observei. Ela era daquelas senhoras que sorri com o olhar. Escolheu o melhor sorriso para ser o seu último endereçado ao seu grande amor. Do outro lado, seu grande amor, apesar de certa falta de ar, retribuía com alívio. Alívio da dor e do desconforto. Alívio da sobrecarga de cuidados para sua família. Alívio dos próprios medos.
Um dia fui surpreendido pela compaixão. A compaixão é muito bonita. Costuma estampar o olhar com uma intensidade brilhante e uma humildade encabulada ao mesmo tempo - se pudesse, pulava o olhar, abraçava a pessoa e lhe acarinhava no colo. Acho que a compaixão é mãe. Ou, pior: é avó. Uma senhorinha de 80 e muitos passava seus últimos dias na enfermaria, sendo cuidada por duas revezavam dia a dia, às vezes até lado a lado. Logo no início, o pedido: por favor, que sua dor seja aliviada e que ela não sofra, é tudo que queremos. Os anos de convivência com uma doença como o câncer transformaram a avó, que ressignificou suas limitações e passou a "apenas" agradecer. E agradecia por tudo: "afinal, doutor, foi muita vida vivida, né?", ela dizia. Dizia que, quando chegasse seu dia, avisaria. Certa manhã, chamou as netas para "fazer recomendações". Seu olhar compassivo encharcou as pálpebras que, repletas, deixavam fluir lágrimas de gratidão e saudade. "Vocês se cuidem, viu? Se amem!", conseguiu completar entre um suspiro e outro, até descansar.
Um dia fui surpreendido pelo amor incondicional. E não foi ninguém que me contou. Eu vi. E ele é real! Aconteceu num dos meus primeiros meses no novo serviço, especializado em cuidados paliativos. Acompanhava um senhor que, até há poucos meses, vivia o auge dos seus 75 anos, aposentado, trabalhando como voluntário, com uma família amorosa. Por causa de dores de cabeça, descobriu uma doença grave e ficou dependente. Quando a doença avançou e lhe tirou a capacidade de falar, conseguia apenas gemer, desconfortável por precisar de ajuda da filha para trocar suas fraldas. Essa filha, mulher criada, entendia o sério problema de saúde de seu pai e, resignada, acolhia e cuidava também da mãe. "Você acha que ele volta pra casa?", perguntou certo dia. "Infelizmente, não", respondi. "É... eu já sabia... Mas foi bom ouvir de você. Eu acho que a morte tá sendo digna com ele, sabe? Por que ele também sempre foi um homem decente. Morrer não é fácil, doutor, mas não se preocupe não. Eu amo meu pai, sei que ele vai morrer e que vai doer em quem ficar, mas ele vai receber o alívio que precisa pra esse corpo cansado. Você é tão jovem e já é médico, né... não se preocupe, não. A medicina fez o que pôde e você também. Fique em paz, porque nós estamos em paz." Nesse dia, o amor incondicional me reconheceu, acolheu e também cuidou de mim. E foi uma experiência devastadora para o orgulho teimoso que resiste nesse peito tão difícil de se abrir.
Sempre sou surpreendido e desejo, do fundo do coração, permanecer por muito tempo. Nossa gente é muito diversa para nos contentarmos com a mesmice ou a indiferença. Os olhares da nossa gente são muito transformadores para nos darmos o direito de não enxergá-los de frente.
Dizem que os olhos são a janela da alma…
Quantas almas você anda enxergando?
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Arthur Fernandes: Médico de Família e Comunidade e Paliativista, mestre em Cuidados Paliativos, especialista em Preceptoria e preceptor da Residência em MFC, na UBS 8 Vale do Amanhecer Planaltina, em Brasília-DF. Entusiasta da medicina narrativa. Autor de “Entre encontros e despedidas - histórias sobre o viver e o morrer na Casinha”, um livro sobre afetos que transitam pelo fim da vida. Da velocidade da ansiedade, aprendendo sobre a (c)alma.
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